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José A. Figueroa

(Havana, 1946)
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José A. Figueroa (Havana, 1946) é considerado um dos fotógrafos que permitiu a transição da fotografia documental para a fotografia simbólica e conceitual em Cuba e na América Latina.

O que o diferencia dos outros fotógrafos cubanos, antecessores e/ou contemporâneos, é o fato de que Figueroa com sua câmera explorou, sem interrupção, todas as etapas históricas do seu país desde os primeiros anos da vitória da Revolução - quando era um jovem fotógrafo, vindo da classe média de Havana, que enfrentava as dramáticas mudanças sociais -, até os tempos atuais; isto é, sua obra engloba cinco décadas que vão desde a “utopia” socialista dos anos sessenta e setenta, com toda a complexidade que esse processo significou  até a realidade atual e a perspectiva incerta sobre o futuro; tudo a partir de sua experiência própria como cubano, havanês e como artista.

Se capacita como fotógrafo durante os primeiros anos da década de sessenta (1964-1968) como assistente e técnico de revelação nos Studios Korda, famoso estúdio comercial inaugurado no final da década de cinquenta em Havana e especializado em fotografia de moda e publicitária. Lá se torna aprendiz, assistente e amigo pessoal de Alberto Korda, que é reconhecido como um dos maiores nomes da fotografia épica da Revolução cubana. As fotografias de Figueroa esta época – em sua maioria inéditas – são, pelo contrário, a reivindicação de uma geração (a sua geração) e possuem uma estética que se empenhava em sobreviver a massificação social e a censura impostas pelo projeto socialista. Assim nos chega uma visão dos anos sessenta pouco conhecida na história da fotografia cubana e ausente, até hoje, da iconografia oficial da Revolução. Seu ensaio fotográfico Exílio [Exílio] (1967-1994) é talvez um dos trabalhos mais eloquentes começado nesses anos, a partir do registro fotográfico exaustivo da emigração cubana aos Estados Unidos de quase toda a sua família e amigos, e o massivo êxodo de mais de 35 mil cubanos no verão de 1994.

Entre os anos de 1968 e 1976 ele continuou como repórter fotográfico na prestigiada revista cubana Cuba Internacional. Durante estes anos ele viajou através do país e trabalhou com escritores novos e consagrados, designers gráficos e jornalistas. Durante essas viagens conheceu “a outra face” de seus contemporâneos, a realidade do campo cubano, as transformações sociais e econômicas promovidas pela Revolução na vida dos mais humildes setores da sociedade cubana. Dessas experiências surgem as séries El camino de la Sierra (O caminho da Serra), Señor retráteme (Senhor, retrate-me), Esa bandera (Esta bandeira) e Compatriotas (Compatriotas), entre outras, carregadas de simbolismo – estético e conceitual -, e do verdadeiro sentido de pertencer ao projeto social do seu país.

Após trabalhar como cinegrafista, por cinco anos, para a indústria cinematográfica (1976-1982), viaja para Angola como correspondente de guerra (1982-1983) e realiza uma vasta obra fotográfica e cinematográfica. A série Angola resume, através de retratos em primeiro plano de soldados cubanos anônimos e seu habitat em terras africanas, o mesmo sentido da guerra: um cenário ambíguo no qual se misturam inocência, incredulidade e morte.

Os dramáticos anos do chamado Período Especial em Cuba (que começou em 1990 com o colapso do campo socialista europeu); a queda física e moral do muro de Berlim no verão de 1990, a queda das torres gêmeas de Manhattan em 11 de setembro de 2001, são, entre outros, momentos históricos registrados in situ e interpretados por Figueroa em ensaios fotográficos que, na opinião da cr tica nacional e internacional, ultrapassam o valor documental tradicional da fotografia – sem negá-lo –, próprios da linguagem das artes visuais contemporâneas. Foi considerado, por ele, como um artista de transição entre o fotojornalismo documental e a fotografia como recurso da expressão artística em Cuba e na América Latina.

 

Suas obras a partir dos anos noventa até o presente refletem a vida dos habitantes de seu país através de um exercício permanente de introspecção e grande síntese visual.